Telefonaste desesperado a meio da noite: «Ela traiu-me, mãe ...descobri tudo». Entre palavras entrecortadas pelos soluços e lágrimas, lá foste explicando como tudo acontecera. Mas, o que mais te doía era aquela pergunta retórica, para a qual não há resposta: « Porque é que me aconteceu isto a mim? O que é que eu fiz de errado?». Tentei acalmar-te e dizer-te que tinhas de ser forte, que talvez fosse melhor assim. Sei que as evidências magoam e por isso gritaste desesperado: «Não digas nada, deixa-me apenas falar, dizer o que sinto».
Fiquei em silêncio a ouvir a tua dor. De quando em quando, deixava escapar uma interjeição de carinho, para sentires que estava contigo, que não estavas sozinho, porque o que mais me aterrorizava era a distância que nos separava, a impossibilidade física de te dar um abraço, enquanto tu dizias repetidamente:«Sinto-me tão sozinho, mãe, precisava tanto de ouvir a voz dela, ajuda-me a resistir à tentação de lhe telefonar».
Como te dizer que todos nós já passámos por isso e que sobrevivemos às marcas indeléveis do primeiro beijo.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário